Príncipe Indiano assume homossexualidade, é deserdado da família e população queima sua imagem em praça pública.

Nascido em uma família real que já governou o reino de Rajpipla, na Índia, ele foi criado nos palácios e nas mansões da família e estava sendo preparado para assumir uma dinastia com 600 anos de história.

Mas, então, ele deu uma entrevista que levou sua mãe a renegá-lo e desencadeou protestos em sua cidade natal, onde foi simbolicamente queimado.


Desde que se assumiu gay naquela entrevista de 2006, o príncipe Manvendra Singh Gohil enfrenta uma série de ameaças, e foi deserdado por sua família por algum tempo.

No entanto, ele também recebeu elogios do resto do mundo por sua defesa da causa LGBTQ, tornando-se um dos poucos ativistas dos direitos dos homossexuais no mundo com laços monárquicos.

Como parte de seus esforços, Manvendra, de 55 anos, apareceu no “The Oprah Winfrey Show” três vezes, conversou com Kris Jenner em “Keeping Up With the Kardashians” e tenta estabelecer um abrigo para pessoas LGBTQ em sua propriedade no estado indiano de Gujarat. E também está trabalhando com várias agências de ajuda para evitar a propagação do HIV entre os homens gays.

Manvendra e seu marido, deAndre Richardson, passaram os últimos meses preparando o abrigo. Eles vislumbram um espaço seguro onde aqueles que foram renegados por suas famílias possam se reerguer e receber treinamento profissional.

“Sei como é importante ter um espaço seguro depois de sair do armário”, disse o príncipe.

Embora a Índia tenha abolido a ordem principesca em 1971, os títulos honorários ainda são comumente usados para os descendentes reais, e responsabilidades tradicionais ainda são cumpridas.


Quando o príncipe revelou ser gay naquela entrevista de primeira página do jornal, há 14 anos, isso criou uma tempestade de publicidade principalmente negativa. Essa revelação pública foi chocante para um membro de uma família real indiana, especialmente do clã guerreiro Rajput, rigidamente conservador, que já governou grandes partes do norte e do centro da Índia. Na época, ser gay era crime no país, sob a arcaica lei britânica em vigor na época. A lei foi derrubada em 2018.

As consequências de seu anúncio foram brutais, começando com protestos em sua cidade natal, Rajpipla, onde ele foi simbolicamente queimado. Sua mãe declarou em um anúncio de jornal que o estava renegando.

O governo lhe ofereceu segurança depois de várias ameaças de morte, mas ele recusou a oferta e não quis recuar. “Decidi que continuaria lutando porque tenho a verdade ao meu lado”, afirmou ele.

Manvendra nasceu em 1965, filho de Raghubir Singh Gohil, o atual marajá honorário de Rajpipla, e de Rukmani Devi Gohil, filha do antigo marajá de Jaisalmer.

Naquela época, a era dos marajás indianos fabulosamente ricos já tinha diminuído. A ostentação de riqueza de seu bisavô, com estábulos de cavalos de corrida e garagens cheias de Rolls-Royces (quase uma dúzia), não era mais bem-vinda em uma Índia recém-independente onde socialismo, austeridade e autossuficiência eram os novos mantras.

Embora a família de Manvendra já não governasse um reino, os velhos costumes ainda prevaleciam em grande parte. Ele passou a maior parte de sua infância na mansão de sete quartos de sua família em Mumbai, cheia de criados que trabalharam para a família por gerações. Ele mal via seus pais e foi basicamente criado pela mesma babá que criara sua mãe.

Sua infância foi extremamente solitária. Seus únicos amigos eram os pássaros e outros animais que ele resgatava. “Cresci literalmente sem amigos, porque sabia que não podia convidar ninguém para minha casa, uma vez que tinha permissão para socializar apenas com crianças com um passado semelhante”, contou.


Ele se formou em Comércio e Contabilidade e mais tarde concluiu o curso de Direito, embora nunca tenha praticado a advocacia.

Em 1991, casou-se com Chandrika Kumari, princesa da família real de Jhabua, uma união na qual entrou voluntariamente, enfatizou ele.

“Eu me sentia atraído por homens, mas pensei que era apenas uma fase passageira. Nunca tinha tido autorização para passar um tempo sozinho com uma menina, e sexo antes do casamento estava fora de questão.”

Ele disse que ser gay não era uma possibilidade que lhe passava pela cabeça, porque não sabia nada sobre isso.

“Depois que nos casamos, ficou claro para mim que eu não me interessava sexualmente por mulheres. Éramos muito bons amigos, nos demos muito bem, mas não havia atração sexual”, revelou.

O casal se separou 15 meses depois, o que causou um alvoroço nos círculos reais. Depois do divórcio, ele conta que se sentia culpado e confuso em relação à sua sexualidade. Voltou para Mumbai, o virgem divorciado de 26 anos, e começou a explorar sua sexualidade pela primeira vez.

“Comecei a ler livros e revistas. Vi um artigo sobre Ashok Row Kavi e sua revista gay ‘Bombay Dost’. Decidi entrar em contato com ele e perguntar se eu poderia ser gay”, recorda-se.

Kavi é o pai do movimento pelos direitos dos homossexuais da Índia. Em 1977, ele saiu do armário e fundou a “Bombay Dost”, a primeira revista gay da Índia, em 1990. Fundou também o Humsafar Trust, o primeiro grupo a fornecer serviços de saúde e de defesa a homens gays, em 1994.

Kavi apresentou Manvendra a outras pessoas da comunidade e o treinou como conselheiro. Ele se lembra do jovem príncipe como um introvertido dolorosamente tímido, que estava lentamente começando a se sentir confortável com sua identidade. Disse que o príncipe financiou silenciosamente a primeira linha de ajuda telefônica para gays na Índia.

Em 2000, com o incentivo de Kavi, o príncipe fundou o Lakshya Trust em Gujarat para ajudar a comunidade gay de lá.

O trabalho foi gratificante, mas, como mantinha sua situação em segredo, o príncipe conta que se tornou cada vez mais difícil fazer o trabalho necessário para o Lakshya. E havia uma pressão crescente para se casar novamente.

Depois que sofreu um colapso nervoso em 2002, seu psiquiatra o convenceu de que o primeiro passo em sua recuperação era revelar tudo a seus pais.

Foi o início de uma longa e amarga provação. “Meus pais estavam em um estado de negação absoluta. Declararam que a ciência devia ter uma cura para minha condição, talvez uma cirurgia ou uma terapia de choque para curar minha ‘doença’.”

Houve consequências financeiras de sua revelação. Ele conta que foi afastado de vários negócios da família e que sua mãe ameaçou persuadir o governo a cancelar o financiamento para o Lakshya Trust.

“Finalmente, cheguei a um ponto da minha vida em que não aguentava mais. Decidi contar ao mundo inteiro.”

Nos últimos 14 anos, o antes tímido príncipe se acostumou com os holofotes e se tornou um ativista vocal do movimento pelos direitos dos homossexuais. Além de seu trabalho com o Lakshya Trust, ele é membro fundador da Coalizão Ásia-Pacífico para a Saúde Sexual Masculina e é consultor/embaixador da Aids Healthcare Foundation.

“Ele estava vivendo uma vida conturbada, sob muita pressão. Mas agora é uma vida de orgulho, no verdadeiro sentido”, declarou Chirantana Bhatt, uma amiga próxima.

Ele também encontrou o amor. Em 2013, casou-se com Richardson, um americano que conheceu on-line em 2009, nos Estados Unidos. O casal vive em uma propriedade em Gujarat dada ao príncipe por seu pai. Sua modesta casa lá é o oposto do opulento palácio de seus antepassados, mas ele afirma que não poderia estar mais feliz.

Manvendra está cautelosamente otimista em relação ao futuro. Ele não tem certeza se vai se tornar o próximo marajá honorário de Rajpipla. “Deixei tudo a cargo dos membros da minha família. Prefiro continuar trabalhando pela minha causa, porque o papel do marajá vem com muitas responsabilidades e deveres que me desviariam do meu ativismo.”

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