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Quando observa as cicatrizes da cirurgia de retirada de mamas a que se submeteu em 2018, Bernardo de Assis, o office boy Catatau de "Salve-se quem puder", orgulha-se do significativo passo no processo de redesignação sexual. As marcas também servem a lembrá-lo do caminho que ainda falta ser percorrido. Estreante em novelas, o ator espera conseguir cada vez mais trabalhos para concretizar outro desejo: remover útero e ovários.
- O SUS não faz essa cirurgia, que é extremamente cara. Estimo que custa uns R$ 20 mil. É meu sonho. Quem usa testosterona é para sempre. Com essa cirurgia, o nível de hormônios poderia diminuir, eu não precisaria aplicar tantas vezes. É uma melhora de 100% na qualidade de vida - explica ele.
Bernardo, que completa
25 anos nesta quinta-feira, 13, está cheio de expectativa para o novo trabalho não apenas pela oportunidade de galgar degraus na carreira e alcançar realizações pessoais. O ator entende que se trata também de uma importante conquista para todos os transexuais.
- O personagem tem uma queda pela Renatinha (Juliana Alves), mas só leva foras. Ainda não sei se existe a chance de ele ser um homem trans. Se for, será incrível. Caso seja cisgênero, vai continuar incrível, porque serei eu ali interpretando. Quando começaram a sair fotos e souberam que eu ia fazer a novela, recebi muitas mensagens, 98% delas de pessoas trans me agradecendo, dizendo que é boa a representação, mesmo não sendo um papel trans. Acho legal abordar outras histórias também e não mostrar só a nossa dor. Que haja cada vez mais atores trans em personagens corriqueiros. Mas vamos continuar militando - afirma ele, que, na TV, participou de duas séries do Canal Brasil, "Noturnos" (estreia no segundo semestre) e "Transviar" (já exibida).
O início da trajetória de Bernardo nas artes aconteceu na mesma época em que ele se deu conta de que a transição de gênero se fazia urgente. Foi em 2015, um ano depois de se formar na escola de teatro Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Nesse período, participou da peça "Bird", sobre a história de uma menina que acorda sem seios e com muitos pelos:
- O espetáculo é totalmente ficcional, mas, quando comecei a ensaiar, fui percebendo como a personagem era muito igual a mim. Gosto de dizer que me reconheci enquanto pessoa através do teatro.
Também em 2015, Bernardo foi à conferência SSEX BBOX, em São Paulo, e assistiu a uma comovente palestra de João Nery, o primeiro homem transexual a realizar cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em 1977.
- Foi quando o negócio explodiu, não dava mais para esconder. Quando ele falou da sua própria experiência e de outros homens trans, comecei a chorar - recorda ele, que estava na companhia da diretora de "Bird", Livs Ataíde. - Eu virei para ela e falei: 'Eu tenho certeza de que sou um homem trans'. E ela respondeu: 'Então, tá, Bernardo'. Achei o nome bom e segui com ele.
 Já em 2017, o diretor Humberto Giancristofaro convidou Bernardo para estrelar um curta, igualmente intitulado "Bird", sobre sua história como ator trans. O lançamento será este ano. Ele lembra que, durante as filmagens, não tinha sequer onde dormir:
- Eu faço parte desse mundo infeliz de pessoas trans que são expulsas de casa e não têm contato com a família e os amigos. Perdi tudo. Hoje eu falo disso com tranquilidade, mas já passei por muita coisa. Se fosse há um ou dois anos, eu provavelmente estaria aos prantos.
Bernardo conta que, então, se tornou nômade e precisou de ajuda para sobreviver:
- Minha mãe sempre tentava reprimir toda e qualquer expressividade masculina. Quando cortei meu cabelo curtinho e comprei roupas que achava que combinavam com meu gênero, não teve muita conversa. Eu fui fazer um espetáculo em Blumenau e recebi uma mensagem dela dizendo que não era para voltar. Eu nem tinha adotado um nome. Estava devagar, criando forças para contar. Todos dizem que é difícil para os pais, mas ninguém leva em conta as nossas perspectivas. Quando eu tentava falar, chorava, gaguejava e apanhava por causa disso. Meu pai ficou quieto, em cima do muro. Ele já tinha seu lado escolhido. Então, ao deixar o convívio com eles, pude ser quem eu sou. Passei um tempo na Casa Nem, um local de acolhimento para pessoas LGBT e em vulnerabilidade social no Rio. E depois fui passando pelas casas dos poucos amigos que ainda falavam comigo. A coisa só mudou quando eu recebi o convite para fazer a série 'Transviar' em Manaus. Graças a isso fiquei seis meses com moradia e alimento. Peguei tudo o que ganhei para fazer a mastectomia. Agora, não tenho raiz. Vou vivendo conforme os trabalhos aparecem.
Por causa de sua experiência, o carioca de Inhaúma, na Zona Norte do Rio, decidiu integrar a Liga Transmasculina Carioca, que nasceu no ano passado, logo depois da morte de João Nery:
- Não poderíamos deixar a luta dele morrer. É o primeiro grupo só formado por homens trans do Rio. Recebemos diversos convites para falar em eventos, empresas e escolas.
Fonte e reportagem : O Globo

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