Pelo direito a ontologia:


Um aspecto que eu acho super engraçado das teorias pós-modernas é que elas além de repetirem de uma forma rebuscada toda uma ontologia conservadora ( logo explico o que é ontologia), eles acreditam que uma não-ontologia, ou a troca de uma visão realista por uma subjetivista de determinado conceito, necessariamente deve ser mais revolucionário que uma ontologia. Isso, não muito ironicamente, me lembra um autor marxista húngaro de nome Lukacs, que escreve justamente sobre a ideia de que por trás de toda visão política de mundo existe uma ontologia do ser social ( ou algo que ele convencionou chamar assim), que pode ser ou revolucionária ou conservadora.

Bem, em primeiro lugar, acho que eu devo explicar o que é ontologia, pois bem, ontologia é uma visão estrutural mais ou menos definida, ou melhor, um sistema que determina como a realidade deve ser, algo como as leis da física ( uma ontologia da natureza física do mundo), as leis da sociedade, as leis da biologia e outras. Pois bem, os pós-modernos acreditam, e fazem bem em acreditar, que ontologias no geral, especialmente as da sociedade, trazem por dentro uma visão ideológica implícita que pressupõe uma visão correta de mundo, um jeito certo das coisas funcionarem. Muitas vezes, tais ontologias nos são apresentadas como algo neutro, independente de qualquer visão ideológica, mas seria isso verdadeiro?

Eu já disse  também que o último recurso, no caso de perda total da confiança nos argumentos anteriores, é cair no que Lukacs chama de visão epistemologizante ( ou seja, voltada para a capacidade humana de conhecer e sua subjetividade e não para a realidade das coisas), como no caso do diálogo entre Galileu e Belarmino, quando Belarmino propõe que por mais lógica e por mais evidências que tivessem do modelo heliocêntrico, ele não passaria de um simples modelo, e a visão teísta geocêntrica de mundo permaneceria certa. E por que eu tenho que falar de tudo isso?

Eu vejo na teoria queer e seus irmãos gêmeos anteriores e posteriores uma confusão a respeito de como combater o que eles mesmos chamaram de heterossexismo, sem querer eles transformam a ontologia heterossexista em única real e sagrada, colocando com um status de transgressão eterna tudo que tende se opor a essa visão, e acreditam que de alguma maneira isso ajudará a vencer o que eles próprios juram combater. Tá existem orientações sexuais e de gênero hegemônicas e contra-hegemônicas, que conservador discorda disso? Ser homem e mulher envolve uma série de regras de jogo ( o que Butler chama de performances) sobre como devemos se comportar, acho que o Silas Malafaia também concorda. E ser homossexual é quase que ontologicamente uma afronta a heterossexualidade. BINGO todos os conservadores acham isso.

Acredito que nossos teóricos queer acham mesmo que elevando todas as ideias heterossexistas ao status ontológico, mesmo que construído socialmente, e convocando todos a impossível tarefa de destruir a realidade, tudo será resolvido. Mas, na prática, não é desconstruindo o que existe que iremos mudar o mundo, mas sim dando a quem não tem o direito de existir. Não é transgredindo parodiando ou o que quer que seja que iremos transformar a sociedade, mas é transformando nossa exceção em regra. Por fim, eu conclamo todos os homossexuais do mundo a dizerem, com todas as letras, que por fim, temos direito a uma ontologia que nos inclua, sim… E não é nos tornando irreais que vamos fazer isso…

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