Caminhos da expressão: algumas reflexões sobre nomes, rótulos e identidades.

Tem um filósofo francês que insiste em não sair da minha mente. Estava folheando páginas de seus textos e cheguei a conclusão de que ele pouco entende dos fins que deseja realizar, ou ao menos não pensou o bastante. Basicamente, ele diz que ao nos fecharmos no mundo limitado dos conceitos, ou ao defini-los propriamente, perdemos um rol de possibilidades de expressão que ficam de fora, e nos trancamos no mundo do logocentrismo fechado e quadrado, que nada vê além de limitadas definições. Mas eu digo o contrário, feche-se em um conceito e um jogo de possibilidades se abre, tenha conceito nenhum e o mundo inteiro se tranca para você.
E acho útil lembrar disso, especialmente num mundo de acadêmicos que sonham em nos abrir as portas da expressividade, esses mesmos que acreditam que as coisas do mundo estão fechadas em binarismos, ou que a razão domina o mundo e não resta nenhum espaço para o sonho; esses acreditam que se nos abrirmos para o devir, se passarmos a ver o mundo como magia e de portas abertas, ou com os jogos de um desequilibrado, talvez tudo se abra. Mas quem disse que pessoas perturbadas têm um mundo aberto? Pode ser até que alguns tenham acesso ao terror, ao medo ou a paranoia, mas certamente vivem em um mundo fechado, ao menos os que eu conheço.
Alguém que talvez veja um amontoado de circuitos incomunicáveis e inexprimíveis, visão típica de um ego cindido, eu vejo um sujeito, uma identidade. Quem vê mais? Ele vê memórias misturadas com imagens e sons, eu vejo o que Descartes cunhou na sua frase: Penso logo existo, o famoso eu transcendental, como depois chamaria Kant. Ele parou aqui. Eu posso ver ao redor do eu toda uma realidade social, identificá-la com a linguagem como fizeram os estruturalistas, ou com a economia como os marxistas; posso ver um poço fundo de impulsos, ou mesmo um amálgama de símbolos que ora somem ou aparecem, tudo no fundo oculto abaixo do eu, o inconsciente, tal qual Jung ou Freud; posso subir para a imensidão das ideias e do espírito, parados ou dinâmicos, como pensaria Hegel ou Platão. E não para ai, posso sonhar com a história desse eu, com os pensamentos e a cognição desse eu, posso desistir de tudo isso e ficar com o simples eu, mas, de qualquer forma, sem ferir nenhuma regra da lógica, eu sonhei, porque sonhos são derivados lógicos da minha capacidade de puxar os sentidos, os não sentidos são delírios, e delírios nunca saem de ideias fixas.
E por que eu tenho que encher-lhes com todas essas divagações? Porque acho que nós, como membros de um movimento nascente, temos ainda que trilhar um caminho árduo na descoberta de nossos senso de pertencimento, nossa identidade. E nós quando falarem do quão limitadora pode ser a ideia de uma identidade fixa, uma essência,temos que lembrar que não. Uma essência tem uma história, uma possibilidade de derivar sentido, de tecer uma linha que nos leva até o começo da humanidade e nos faz ver o futuro. Uma identidade fluida é um todo amorfo que caminha sem luz, sem estrada, pois tudo que consegue ver é seu destino imediato. E digo mais, como o único povo cujo senso de identidade é todos os dias negado, seja por conservadores ou papagaios progressistas, não temos só que beber do licor essencialista como temos que afirmá-lo, pois identidade é revolução.
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